Um pouco de cinema dadaísta

O filme Entr’Acte é um curta metragem francês de 1924. O filme foi dirigido por René Clair, roterizado por Francis Picabia e René Clair e conta com as atuações de Jean Börlin, Inge Frïs, Francis Picabia, Marchel Duchamp e Man Ray.

O curta foi produzido para ser exibido no intervalo de um ballet apresentado pelo Suédois Ballet de Rolf de Maré, que contou com a coreografia de Jean Borlin e música de Erik Satie. Picabia pretendia que este filme mudo fosse marcado pelos suspiros e murmúrios da plateia, porém as pessoas emudeceram e o filme foi exibido em silêncio. Furioso, Picabia gritava para o público: “Falem, digam alguma coisa, falem!”. A plateia se manteve atônita pela sequência das cenas que assistia.

barquinho cidade  Entr’Acte é considerado a grande obra-prima do cinema dadaísta. Ao realizar um filme iconoclasta, composto por uma sequência de cenas aparentemente desconexas, Clair na realidade critica vários elementos do cotidiano das cidades dos anos de 1920, utilizando sua obra como um espelho daquilo que vê e pensa sobre o mundo em que está inserido. A produção busca subverter os conceitos narrativos tradicionais, apresentando desfechos inusitados, próximos ao grotesco.

A primeira cena do filme apresenta um canhão se movimentando sozinho quando chegam dois homens pulando, interpretados por Picabia e Erik Satie, e se posicionam um de cada lado do canhão. Os homens conversam e inserem uma bala no canhão, e saem em um movimento que parecem saltitar. Há o disparar do canhão.

Já no figurino das personagens é possível perceber uma oposição de ideias, um veste uma roupa mais formal, um terno escuro, usa chapéu, óculos, bengala e segura livros, já o outro está mais despojado, usando uma camisa clara. Essa cena de introdução ao filme o autor já mostra a eterna oposição de ideias, o novo e o antigo, o formal e o informal, o escuro e o claro. Mas quando resolvem juntar forças, ou seja, inserirem juntos a bala no canhão, há a vitória: o canhão dispara. O autor assim defende que o diálogo entre ideias opostas podem resultar na conquista de resultados.

canhão

Após a apresentação dos créditos iniciais, aparece uma imagem da cidade de cabeça para baixo, na qual é possível perceber a ideia do autor em relação à sociedade: está com inversões, possui diversos problemas, precisa se repensar. Surgem três bonecos cujas cabeças esvaziam e enchem, e acima, em duas pequenas janelas aprecem imagens da cidade. Simultaneamente, uma luta de boxe na qual só as luvas de boxe aparecem se sobrepondo à imagem da cidade, palitos de fósforo em uma cabeça que começa a pegar fogo, o surgimento de um rosto e a transição para um prédio com influências na arquitetura Greco-romana apresentam a luta e as dificuldades de se viver em uma cidade. E os pensamentos humanos sempre encontrando dificuldades para se firmarem diante dos conflitos da vida moderna.

bonecos sem cabeça

Na cena seguinte, dois homens, Duchamp e Man Ray, jogam xadrez no alto de um prédio. No tabuleiro surge a imagem da cidade em movimento. Umxadrez jato de água cai sobre eles, os homens desaparecem e o tabuleiro de xadrez cai. O xadrez é uma representação de jogos de poder, uma disputa de que rei permanece até o final do jogo. Ao mostrar a cidade no tabuleiro, Clair demonstra a relação de poder vivenciada na sociedade moderna. Com o esguicho de água “lavando” a manipulação e as relações de poder. Ao final da cena, um barquinho de papel navega pela cidade, mostrando uma conquista quase infantil da idealização da “limpeza” da cidade.

 

A sequência da bailarina reflete um pouco deste pensamento: o ballet, sinônimo de beleza, de leveza, de regras, de representação clássica, é filmado de outro ângulo, por baixo do tutu da bailarina ou, em outros momentos, focalizando as imagens em partes do corpo em separado, impedindo a contemplação e a compreensão do todo da dança. A finalização é um momento cômico e grotesco: a bailarina possui barba e bigode, um contraponto ao perfil de feminilidade que era esperado. Assim, o artista questiona e critica, representa suas inquietações, utiliza a surpresa para frustrar o espectador, refletindo assim, sua própria frustração diante do mundo. Há um reflexão sobre as imposições de gênero, o que é ser feminino? O que é ser masculino?

bailarina

Já na sequência seguinte, há imagens sobrepostas de água, olhos humanos e elementos em movimento completam a ideia de que há uma possível solução para os problemas sociais. É a mesma conclusão iniciada na sequência do jogo de xadrez.

Um homem, trajando roupas de séculos passados, com uma espingarda em punho, mira em um ovo que é erguido ao ar por um jato d’água. Há uma mudança de foco e o homem visualiza outros ovos, o que faz com que ele fique perdido sem saber onde mirar.  Ele para, desiste por alguns momentos, depois percebe que há novamente um único ovo. Ele atira e do ovo sai um pássaro que voa e pousa no chapéu do homem que fica feliz com a conquista. Um outro homem, trajando roupas modernas, aparece com uma outra espingarda e mira no homem com o pássaro no chapéu, acertando-o. O homem do pássaro cai do alto do prédio.

Nesta sequência, há uma representação da busca pela liberdade, libertar o pássaro de dentro do ovo, do antigo, representado pelo figurino. Essa busca passa por momento de perda de foco e possibilidade de desistência, mas quando se percebe como alcançar o objetivo, há a sensação de felicidade. Sensação esta que é exterminada pela ação do moderno, que mata o homem e pássaro.

Há o incorreriaício de um cortejo fúnebre, onde o caixão é puxado por um camelo. Embora alguns pareçam muito consternados, outros nem ligam para o que está ocorrendo, uma personagem, inclusive, come algumas flores de uma coroa. As pessoas que acompanham o cortejo em uma espécie de corrida em câmera lenta parecem saltitar.

O camelo se solta do carro fúnebre que sai desgovernado. Todos saem em disparada atrás dele. Também são mostradas imagens da velocidade das cidades, são carros, bicicletas, barcos, entrecortadas por imagens vertiginosas, como a do percurso de uma montanha russa. O caixão cai em um gramado, os membros do cortejo chegam e contemplam o caixão, que se abre diante de olhares atônitos. De dentro dele sai um mágico que faz desaparecerem todos para em seguida desaparecer também. Um pano branco escrito fin é rasgado pelo mágico, atrás do pano há outras pessoas, e numa espécie de retroceder, o mágico retorna para trás do pano que volta a aparecer intacto.

A sequência final é o ápice da subversão lúdica do filme: contrastes entre vida e morte, correria do cotidiano e consternação, cômico e trágico, culminando num final inesperado, conduzindo o espectador a mais uma vez refletir sobre questões que perpassam a vida cotidiana. O autor mostra, que assim como na vida, não se deve criar expectativas sobre o desencadear dos fatos, tudo que acontece é uma sucessão de acontecimentos inesperados e surpreendentes.

O objetivo dos autores ao produzirem Entr’Acte não foi o de conferir sentido ou leituras a partir das imagens, mas um convite à diversão e ao riso anárquico. Não há gratuidade nas imagens, mas elas possibilitam uma livre associação subjetiva de ideias, não possuindo uma leitura única, mas um leque de possibilidades de interpretação.

O clássico dadaísta Entr’Acte composto pela junção de cenas desconexas é um convite a associação livre de ideias e interpretações. As conclusões inesperadas, as imagens cômicas e as sobreposições ousadas são elementos importantes de exploração de outras formas de se fazer cinema, fugindo do “cineromance”.

A arte evolui a partir do momento que artistas que ousam, apresentam o novo e não ficam arraigados a conceitos estabelecidos. O Dadá foi um importante movimento a defender a inovação e a liberdade, além de despertar a importância em se pensar o fazer artístico. A arte muito mais que uma forma de expressão, é uma maneira de representar a vida no seu sentido mais pleno e amplo.

mágico saindo do fin

 

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Sobre silêncios e vozes

“Compreendera que sua vida, um grão de areia no fundo do rio, só tomaria corpo, só engrandeceria, se se tornasse matéria argamassa de outras vidas” (Conceição Evaristo, Ponciá Vicêncio)

Escrever é um ato de resistência. Colocar no papel as expressões de vozes silenciadas ao longo dos séculos é resistir. Sair do silêncio incômodo das imposições de uma sociedade marcada por diversos preconceitos é coragem. Coragem é usar a sua voz para mostrar ao outro, em seu lugar de privilégio, que ele é sim marcado por preconceitos. Somos todos marcados. Marcados pelo nosso gênero. Pela nossa cor. Pela nossa classe social. Pela nossa orientação sexual. Somos marcados pelas opressões que resultam de ser quem somos. Ou somos marcados pelo privilégio de ser quem somos. A diferença é que a opressão se faz ver. Ela silencia. Já o privilégio cega. Faz com que a vista se turve em um mundo de ilusões. “Eu tenho porque mereço”. “Eu consegui porque trabalhei para isso”. E será que é só isso?

O despertar das consciências se dá quando o oprimido percebe seu local. E luta para que sua voz seja ouvida. Rompe os silenciamentos. E quando o privilegiado enxerga seu local. E percebe a importância de fazer a sua parte na construção de uma sociedade mais justa. Quando se cala. E percebe que ser ouvido não é fruto apenas de um “merecimento”, mas também de suas marcas.

 

20170627_095535Quando uma obra como Ponciá Vicêncio da Conceição Evaristo se limita a um pequeno circulo de leitores, sobretudo aqueles que estão inseridos num contexto acadêmico, faz pensar. Por que um romance tão grandioso, tão bem construído esteticamente não tem o espaço que merece?

Ah o mercado editorial… fazendo com que livros “escritos” por atores mirins e celebridades da internet ganhem publicações, prateleiras e destaque. Já nossos artistas das palavras passam a ser resistência. No mundo mercado, a concorrência é grande, quem vende arremata tudo. E quem vende? Por que vende? Será que obras potentes, com fortes questionamentos acerca do mundo e sobre as relações sociais contemporâneas merecem destaques? Ou continua perigoso dar voz aos silenciados? Será que este romance precisará aguardar anos até que ocupe um lugar de destaque nas livrarias?

Ponciá Vicencio narra a trajetória de Ponciá da infância a vida adulta, passando pelo seu deslocamento do interior para a cidade grande, da separação ao reencontro com sua família. A personagem sofre diversas formas de violência e decepções, apesar disto, ela nunca perde sua ternura. Pela narrativa é possível perceber que ela encontra forças que a impulsionam prosseguir a partir da sua construção identitária alicerçada em suas memórias. É na busca de suas lembranças que a narrativa de Ponciá se fundamenta para apresentar quem ela é e como ruma em busca de seus objetivos. No romance, a memória é representada como fator de construção da identidade do indivíduo, sobretudo por evidenciar a história social do grupo no qual a personagem está inserida e os fragmentos identitários que a constroem (mulher, negra, oriunda da zona rural, pobre). Entretanto, também apresenta como essas memórias são alavancas para a sua (re)invenção e (re)significação de sua identidade, partindo de uma vivência de subalternização a conquista de seu empoderamento.

Buscar autoras que não possuem destaque nas publicações de grandes editoras também é uma forma de resistência. Dar visibilidade a livros de autores silenciados é resistência. E se permitir refletir sobre a sua forma de experimentar o mundo e ver as relações sociais também é coragem. Pois mudar é um grande ato de coragem.

 

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Sobre a Saga dos Corvos, Maggie Stiefvater

Um segredo é uma coisa estranha.

Há três tipos de segredos. Um é do tipo que todo mundo conhece, do tipo que precisa de pelo menos duas pessoas. Uma para guardá-lo. Outra para nunca sabê-lo. O segundo é um tipo mais difícil de segredo: aquele que você esconde de si mesmo. Todos os dias, milhares de confissões não são feitas a seus potenciais confessores, e nenhuma dessas pessoas sabe que todos os seus segredos jamais admitidos se resumem às mesmas três palavras: Estou com medo.

E então há um terceiro tipo de segredo, do tipo mais escondido. Um segredo que ninguém sabe a respeito. Talvez ele tenha sido conhecido um dia, mas foi levado para o túmulo. Ou talvez seja um mistério inútil, oculto e solitário, perdido porque ninguém o procurou.

Às vezes, algumas raras vezes, um segredo permanece desconhecido porque é algo grande demais para a mente guardar. Estranho demais, vasto demais, aterrorizador demais para ser contemplado.

Todos nós temos segredos na vida. Nós os guardamos ou temos alguns guardados de nós, jogamos ou somos jogados. Segredos e baratas — são o que restarão no fim de tudo.

(Ladrões de sonhos, Maggie Stiefvater)

 

 

Um dos aspectos mais sensacionais da Literatura é a possibilidade de nos transportar para outros mundos. Sejam eles concretos ou mágicos. E ao longo das páginas, mergulhar num mar de possibilidade, onde tudo pode acontecer. O escritor tem o poder de compartilhar com seus leitores muito mais do que uma história, mas sonhos, possibilidades e respostas.

Seja de que gênero for, nas linhas impressas de um livro vivenciamos outras experiências junto com os personagens. E um gênero que abertamente nos convida a compartilhar ilimitadas jornadas é a fantasia. Quando uma história fantástica é bem contada, ultrapassamos todas as barreiras do que seria possível no mundo que conhecemos e estamos abertos a seguir por qualquer caminho que a narrativa irá nos conduzir.

Caminhos esses que muitas vezes nos conduzem a desfechos muito mais sensatos do que aqueles que encontramos em nosso mundo “real”.

E uma dessas narrativas fantásticas que merece destaque é a Saga dos Corvos (The Raven Cycle), escrita pela autora estadunidense Maggie Stiefvater. A série é composta por quatro livros: Os garotos corvos, Ladrões de sonhos, Lírio azul, azul lírio e O Rei Corvo, todos publicados em português no Brasil pela Editora Verus, com tradução de Jorge Ritter.

A saga se passa em Henrietta,uma pequena cidade cheia de magia e mistérios. Todo ano, Blue e sua mãe, na noite da véspera do dia de São Marcos, visitam uma igreja abandonada e lá entram em contato com os espíritos daqueles que irão morrer no decorrer daquele ano. Maura, a mãe de Blue, é médium clarividente. Ela vê os espíritos, anota seus nomes e trabalha ao longo de ano para alertá-los sobre sua iminente morte. Já Blue não consegue ver nada, mas possui um poder peculiar: ela amplia as energias e possibilita vidências mais claras. Entretanto, no ano em que a história inicia, Blue não realiza o ritual com sua mãe, mas com sua tia. E, pela primeira vez, ela consegue ver um espírito: um garoto, que se apresenta como Gansey.

Blue vive na peculiar casa da rua Fox, 300. Suas moradoras são todas mulheres. E todas elas médiuns. Menos Blue. Fato este que sempre a deixou irritada, pois não possuía outras habilidades paranormais que não fosse amplificar o poder dos outros. Ela também carrega consigo uma maldição: se beijar seu amor verdadeiro, ele morrerá. E ainda há outra questão: por Blue não ser médium, a vidência dela no último dia de São Marcos seria por dois motivos: Gansey seria seu amor verdadeiro ou ela seria responsável pela sua morte. O que para ela era tudo a mesma coisa.

Também somos apresentados aos garotos corvos: Gansey, Ronan, Adam e Noah. Eles recebem esse apelido porque estudam na Academia Aglionby, escola particular da cidade, cujo símbolo é um corvo. Gansey é um líder e possui uma verdadeira obsessão: encontrar um lendário rei galês Glendower que estaria vivo, enterrado em Henrietta e preservado por mágica. Ronan é um personagem um tanto intenso, repleto de raiva e segredos. Adam é um rapaz pobre, que batalha muito para ter um excepcional desempenho escolar e poder sair de Henriquetta. E Noah, o observador, que guarda uma grande revelação. Os garotos são amigos inseparáveis, e todos se juntam na jornada na busca pelo rei adormecido.

Até que conhecem Blue… E a narrativa vai ganhando um novo fôlego a cada página.

Ao longo dos livros, uma série de reviravoltas ocorre e tudo o que se desconfiava como certo, pode ter um rumo bastante inesperado. É uma história diferente. E a escrita da Maggie é muito cuidadosa. Ela não simplesmente narra o que está acontecendo com os personagens, mas brinca com a linguagem, tornando a leitura ainda mais prazerosa. Nada na narrativa é gratuito, seja uma característica do personagem, um fato, um adereço. Tudo está relacionado e contribui para a história.

Os personagens são muito bem construídos, fazendo com que o leitor se envolva com suas histórias e dramas pessoais. E nada é o que parece ser. Assim como muitas vezes são os fatos e  as pessoas “reais”.

A Saga dos Corvos é uma leitura leve, divertida e muito instigante. A autora construiu uma narrativa inovadora e surpreendente. Em um momento em que falta tanta poesia e magia, foi um bálsamo conviver por alguns momentos com a Blue, com os garotos corvos e com as moradoras da Rua Fox, 300.

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Crônica da casa assassinada, Lúcio Cardoso

“Que é, meu Deus, o para sempre – o eco duro e pomposo dessa expressão ecoando através dos despovoados corredores da alma -, o para sempre que na verdade nada significa, e nem mesmo é um átimo visível no instante em que o supomos, e no entanto é o nosso único bem, porque a única coisa definitiva no parco vocabulário de nossas possibilidades terrenas…”  (Lúcio Cardoso, Crônica da casa assassinada – Capítulo 1 Diário de André [conclusão])

Em uma das minhas muitas visitas a um dos meus sebos favoritos, o Berinjela, no Centro do Rio de Janeiro, fui a procura de um livro indicado por um professor. O nome do livro era Crônica da casa assinada, do Lúcio Cardoso. Já havia ouvido falar do autor, mas nunca havia lido nenhuma de suas obras. A moça que me atendeu disse que de uns tempos para cá muitas pessoas o estavam procurando. E que ela estava muito feliz, pois mesmo sendo um livro maravilhoso, ele passou anos quase abandonado. E que um rapaz que havia saído minutos antes de mim tinha levado o último exemplar. A sorte não estava ao meu lado naquele dia, mas tempos depois, com alguma busca, consegui comprar o meu exemplar.

wp_20170130_006Comecei a leitura sem saber sobre o que se tratava o livro. E fui completamente arrebatada logo nas primeiras linhas. A escrita de Lúcio Cardoso é habilidosa, cada palavra, cada estrutura são pensadas cuidadosamente. E a leitura flui num emaranhado de sentidos, intrigas e poesia.

O romance conta a trajetória dos Meneses, família tradicional de uma cidade do interior de Minas Gerais após o casamento de Valdo, o irmão do meio, com Nina, uma jovem carioca que destoava bastante do cotidiano dos conservadores moradores da Chácara. Cada capítulo, narrado sempre em primeira pessoa, apresenta a perspectiva de um dos personagens que compõem essa história. Assim, o autor oferece aos seus leitores diversas visões e ângulos sobre a narrativa apresentada.

O livro foi publicado em 1959 e é muito interessante ler a coragem do autor em abordar diversos assuntos que até hoje são encarados com muita resistência e conservadorismo. Somos envolvidos numa trama que trata de violência, de incesto, de relacionamento abusivo, do papel da mulher na sociedade, de preconceito contra homossexuais. Como cada capítulo é narrado pela perspectiva de um personagem, proporciona ao leitor um panorama do pensamento da época sobre esses assuntos, visitando diferentes camadas sociais e gêneros. O autor não assume um posicionamento de enfrentamento dessas questões, apenas as expõe. Há uma certa unicidade nas posições apresentadas pelos personagens, mas isso não enfraquece a força da narrativa. O autor faz um verdadeiro estudo sobre a hipocrisia, sobretudo de uma classe que não mede as consequências para manter uma aparência. Aparência essa que nem de longe reflete uma realidade.

Ainda não descobri o que fez essa obra ser popularizada entre os frequentadores de sebos cariocas. De qualquer forma, é muito bom descobrir um tesouro da literatura brasileira e saber que ele está conquistando leitores.

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Sobre contar histórias

A criança e o adulto, o rico e o pobre, o sábio e o ignorante, todos, enfim, ouvem com prazer histórias – uma vez que estas histórias sejam interessantes, tenham vida e possam cativar a atenção. A história narrada, lida, filmada, dramatizada, circula em todos os meridianos, vive em todos os climas. Não existe povo algum que não se orgulhe de suas histórias, de suas lendas e de seus contos característicos“.   (Malba Tahan, prefácio de As Mil e Uma Noites)

 

Se há algo que o ser humano precisa para viver é de histórias. As histórias são tão essenciais a vida, como são a água e o oxigênio. O ato de ouvir e contar histórias faz parte da cultura de todos os povos e mantém acesa a chama de sua identidade cultural. Contar histórias faz com que toda uma tradição, lendas, crenças, a trajetória dos antepassados sejam passadas de geração a geração. Mais do que isso, ensinamentos são transmitidos. Ou como diria Walter Benjamin, é na narrativa que é compartilhada a sabedoria.

Entre diversos povos africanos, por exemplo, havia o griot, membro da comunidade que era o guardião das histórias de seu povo. Ele tinha a responsabilidade sagrada de transmitir lendas e ritos ancestrais a partir da narração oral. Já entre os gregos antigos, os aedos e os rapsodos contavam essas histórias em espetáculos públicos.

Entre os árabes não havia aldeia em que não existisse pelo menos um contador de histórias. Em algumas cidades maiores, como Cairo, Damasco ou Constantinopla, os contadores de história se reuniam em associações, e o seu dirigente, denominado de cheik el-madah, recebia enorme prestígio e autoridade.

Ao longo dos séculos o ato de contar histórias foi se modificando, as plataformas foram se alterando, os mecanismos foram se adaptando às necessidades de cada povo. Porém, a essência do que significa ouvir e contar histórias permanece. Permanece a vontade de trocar experiências, de transmitir valores, de sensibilizar.

A Literatura é uma dessas manifestações da arte de contar histórias. Nas páginas dos livros compartilhamos os dramas e aventuras, dores e alegrias, vitórias e fracassos de personagens, que embora não povoem o mundo concreto, transmitem emoções compartilháveis por qualquer um que co-habita em seu mundo por alguns momentos.

Ao mergulhar em uma história compartilhamos a dor do outro, mesmo que nunca a tenhamos experimentado em nossa vida cotidiana. E esse contado com o sentir o que o outro sente desperta em nós compaixão, empatia. Também desperta um olhar crítico sobre o mundo e as relações humanas. Nos torna, ao mesmo tempo, mais esperançosos e céticos acerca de tudo o que nos redeia.

Cada história ouvida, lida ou compartilhada nos transforma. Modifica nossa visão de mundo e a maneira como nos comportamos sobre determina situação. Faz com que entendamos o mundo de uma maneira mais complexa, ampliando os horizontes e tornando múltiplas as possibilidades de análise daquilo que nos cerca.

Em um mundo repleto de violência, em que a dor do outro não toca mais. Num momento em que se assiste em silêncio a injustiça. No qual a morte vira estatística, e o outro vira um problema social. Em que o semelhante representa perigo por ser diferente.

Está faltando histórias. Está faltando ouvir, ler e compartilhar narrativas, que se tornam experiências. Está faltando compartilhar sabedoria. Está faltando se colocar no lugar do outro, e por alguns momentos experimentar uma vida que não é a nossa. Sofrer uma dor que não é a nossa.  E assim, rememorarmos nossa identidade cultural. E assim, aprendermos qual é a trajetória dos nossos antepassados. E assim, recordarmos o que precisamos de verdade para viver. E assim, lembrarmos o que é ser humano.

 

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Um jogador, de Feódor Dostroiévski ou como a história sobre o livro pode ser mais interessante que a história do livro

 

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FMD era um jogador. A mesa verde e as roletas faziam com que ele esquecesse do que tinha a perder, fazendo com que a emoção de mais uma aposta falasse mais alto que tudo. As perdas eram muito mais expressivas do que suas poucas vitórias. Assim, as dívidas e a falta de dinheiro para mais uma aposta logo se fizeram presentes. O jogador, que também era escritor, sedento por mais capital para seus jogos, certa feita aceitou um contrato muito perigoso com um esperto livreiro, cujo dinheiro para mais um romance o havia adiantado:

 

“se até 1º de novembro o mais tardar, não fosse entregue o novo romance que devia contar pelo menos dez folhas de impressão, ele seria condenado a uma multa e todas as suas obras anteriores se tornariam, sem compensação, propriedades de Stellvoski”

Outubro já avançava a passos largos e o romance estava longe de ser concluído. Aterrorizado com o possível desfecho de sua trágica história, o jogador recorreu aos serviços de uma jovem estenógrafa. Juntos, estenógrafa e o escritor rapidamente concluíram o romance, e antes do prazo, o manuscrito poderia ser entregue ao editor.

Porém, o inescrupuloso editor havia desaparecido. O escritor ficou desesperado, pois apesar de ter cumprido seu prazo, como poderia entregar o romance pronto? Mais uma vez, a sábia estenógrafa salvou o jogador com uma sugestão preciosa: entregar o manuscrito ao comissionário de polícia, pedindo um recibo com a data e o horário da entrega. E assim foi feito. O jogador entregou seu livro no prazo estabelecido, mantendo para si todas as suas obras. E ainda por cima, jogador e estenógrafa se apaixonam e casam pouco tempo depois, formando uma parceria que duraria até o final da vida do escritor.

Não. Esta não é a narrativa escrita por Dostoievki em seu romance Um Jogador, publicado em 1866. Essa é a história de como Um Jogador foi escrito e publicado. A estenógrafa é Ana Grigorievna, que se tornou esposa, secretária, editora e conselheira de um dos maiores escritores do mundo.

Já o romance Um Jogador? Bem, ele conta as aventuras de Alexei Ivanovich e sua vida de jogador, da ascensão à ruína. De sua paixão por Paulina e suas ações para estar próximo a moça. Como todo texto do romancista russo é uma narrativa empolgante. É um narrador detestável, mas envolvente. O leitor sabe o quão errado ele está, e já sabe de antimão como suas decisões são equivocadas, mas mesmo assim torce por ele.

No romance, o autor expressa os sentimentos de um jogador, que assim como ele, correm o risco de perder muito mais do que suas posses para se manter no jogo. A leitura transporta o leitor para sentir a emoção que é a possibilidade de vencer uma partida, de acertar o número da roleta. Mas também expressa o desespero de perder tudo em outra rodada. De como as pessoas se aproximam e se afastam dos jogadores. E como é solitária essa vida.

O romance conta uma boa história. Mas a história sobre o livro é, sem dúvida, mais instigante, emocionante e romântica.

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O lado mágico do real

53 anos, 7 meses e 11 dias. Foi esse o tempo entre o primeiro olhar que Florentino Ariza lançou sobre a bela Firmina Daza e a concretização de seu amor. E toda essa trajetória é narrada pelo colombiano Gabriel Garcia Márquez em seu romance Amor nos tempos do cólera, lançado em 1985.

O jovem Florentino Ariza, funcionário dos telégrafos se apaixonou por Firmina Daza, filha de um controverso comerciante local, Lorenzo Daza. Para se aproximar de sua amada, Florentino enviou uma carta de amor, e foi correspondido. A partir daí, os jovens iniciaram uma troca de correspondências, que inclui muito romantismo, poesia e um pedido de casamento.

Ao descobrir o relacionamento dos dois, Lorenzo Ariza iniciou uma viagem com a filha para mantê-la afastados os dois enamorados. Porém, com apoio do serviço de telégrafos, os dois continuaram a trocar correspondências, ascendendo ainda mais a chama do amor entre os dois.

Dois anos se passaram até que Firmina Daza retornou à pequena cidade. Ao cruzar com sua amada na Vila dos Escrivãos, Florentino Ariza se aproximou e a chamou de “Deusa Coroada”, forma pela qual a tratava em suas cartas de amor. Firmina Daza, por sua vez, constatou que a sua visão do amado era idealizada e não correspondia à realidade. Ela fez apenas um gesto com a mão e disse: “não, por favor, me esqueça!”.

Pouco tempo depois, Firmina Daza se casou com o cobiçado médico Dr. Juvenal Urbino. Apesar de não amar o marido, viveu em relativa felicidade com ele por mais de 50 anos. Já Florentino Ariza, a esperou por 51 anos, nove meses e quatro dias para concretizar o seu amor.

O romance é inspirado na vida do jovem telegrafista Gabriel Eligio García e Luisa Santiaga Márquez, filha do coronel Nicolás Márques, que desaprovava o namoro da filha. Entre mensagens cifradas, cartas anônimas e encontros escondidos, os dois se casaram e tiveram onze filhos, dentre eles Gabriel Garcia Marquez.

Toda a obra de Garcia Marquez transborda aspectos biográficos, das experiências vividas por sua família, por seu tempo e seus lugares, a partir de muitas alegorias e lirismo. Para Ana Lúcia Trevisan “desdobradas e metafóricas, ressurgem como espaços capazes de evocar a História e de articular a façanha da multiplicação de significantes e significados latino-americanos” (TREVISAN, 2007, p. 33).

Para o autor, as memórias afetivas e as suas experiências são os principais pontos na elaboração de sua obra. Segundo ele: “elaborar [uma epopeia] com recursos artificiais não adiantava mais. O importante era a carga emocional que eu arrastava sem saber, e que tinha me esperado intacta na casa de meus avós”.

Garcia Marquez é um dos maiores expoentes da tendência literária conhecida como Realismo Mágico. A tendência tem grande expressividade entre autores latino-americanos, como Mário Vargas-Llosa, Júlio Cortázar e Juan Rulfo. Quase todos, assim como Gabriel, foram (ou são) jornalistas. Para Reynaldo Damázio, a relação entre literatura e jornalismo revela aspectos importantes sobre as obras desta tendência:

“Por conta da fusão entre um realismo que se poderia chamar de crítico, em virtude do registro implacável de idiossincrasia e mazelas, com uma fabulação exuberante que muitas vezes envereda pelo fantástico, a produção desses escritores ganhou a classificação de realismo mágico” (DAMÁZIO, 2007, p. 38)

Gabriel Garcia Marquez afirmou que “creio hoje, mais do que nunca que romance e reportagem são filhos de uma mesma mãe”, conciliando assim as duas formas de escrita, e justificando o tom literário em sua produção jornalistica e o caráter narrativo realista em seus romances.

Em O Amor nos Tempos do Cólera, o autor mistura fatos registrados historicamente, como o surto de cólera que atingiu a América Latina entre o final do século XIX e início do século XX e a sua própria história familiar, com elementos ficcionais, recheados de elementos fantásticos e pitorescos.

Um aspecto que merece ser destacado na obra é a força das personagens femininas, como a heroína Firmina Daza, mulher forte, com personalidade e força de decisão, e Tránsito Ariza, mãe do protagonista, grande responsável pela construção do caráter e do lirismo que tornam Florentino Ariza um personagem tão marcante.

Garcia Marquez assume que foram as mulheres que mais marcaram a sua formação: “Acho que, na verdade, eu devo a essência de minha maneira de ser e de pensar às mulheres da família e às muitas das empregadas que pastorearam a minha infância”.

Outro aspecto notável da construção do romance é a sua linguagem. Envolvente, ágil, mas ao mesmo tempo bastante descritiva. O leitor tem a impressão que o narrador contará a história sem pressa, pois ela merece e precisa ser contada em seus mínimos detalhes. Para Trevisan:

“A força narrativa Garcia Marquez se esconde e se mostra em um binômio indissociável, próprio da verdadeira literatura quando esta agrega uma boa história a uma forma diferenciada de narrar. Quando um escritor nos oferece uma forma que revela em si mesma o conteúdo que abarca estamos diante de um corpo com sua alma” (TREVISAN, 2007, p.33)

A força narrativa de Garcia Marquez conduz a um caminho mágico, mas ao mesmo tempo possível. Apesar dos elementos oriundos do universo do imaginário, o autor traz as personagens para próximo, como se Firmina, Florentino, Tránsito, Juvenal, Lorenzo, e os outros fossem personagens reais.

A memória é algo construído. E Gabriel Garcia Marquez comprova isso em sua obra, na qual uma história verídica ganha contornos mágicos. A lembrança afetiva está vinculada à sua reconstrução imaginativa, e em sua narrativa literária o autor expõe todo esse caráter emotivo.

O Amor nos Tempos do Cólera não é só uma história sobre a força do amor, mas sobre a força da imaginação para dar contornos mágicos a uma – muitas vezes dura – realidade.

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A Visitante

O som do vento agitando as árvores do lado de fora anunciam o que todos já esperavam há dias: a chuva estava por vir. Não uma chuvinha qualquer, ou uma rápida chuva de verão. Não!  Gotas grossas, acompanhadas de fortes rajadas de vento marcariam a paisagem do Rio de Janeiro. É o início da primavera, que vem em seguida de um final de inverno marcado não pelo frio – clima esperado para esta época do ano –  mas por dias quentes e secos.

O céu escuro, prenúncio da forte chuva, traz preocupação. Mas ao mesmo tempo, alívio para boa parte dos cariocas que não aguentam mais o bafo quente e seco que vem sendo um fiel e indesejável companheiro já há algumas semanas. Quase todos aguardavam por esta chuva ansiosamente.

A chuva cai.  A correria dos transeuntes em busca de um abrigo ou do meio de transporte que os conduzirão com mais rapidez para casa agitam o já agitado cenário do final da tarde da metrópole.

A chuva cai. E muda muito mais que o cenário urbano. Muda o humor das pessoas. Muitas daquelas pessoas que reclamavam da falta de chuva passam agora a amaldiçoar o fenômeno climático.  Como se por reclamarem, ela fosse, por um passe de mágica ou milagre, cessar até um momento propício. E qual seria este momento?

A chuva cai. Nós, seres humanos, temos o costume de achar que os fenômenos climáticos devem respeitar as nossas vontades, agendas e estados de espírito.  E quando ela cai, não porque é natural, mas é porque “eu estou num mau dia”. Sim, porque além dos fenômenos naturais terem que ser condizentes com as nossas vontades, quando eles não o respeitam é porque há alguma conspiração maior com o único objetivo de implicar conosco.

E a chuva cai. Os olhares vão ficando cada vez mais mau humorados e a vontade de brigar com o primeiro ser que tiver a audácia de encostar em nós completamente molhado cresce de forma exponencial.

Aos poucos a chuva vai indo embora. Em poucas horas ela não passa de uns chuviscos.  E com o fim da chuva, vem chegando lentamente o calor. E com ele os pedidos de chuva, para refrescar um pouco o calor queniano do Rio de Janeiro.

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Uma xícara de chá, um cobertor e uma boa música

img1Em tempos de “Ai, se eu te pego”, de “Que isso novinha?”, de “Tchê tchê”,  quando pensamos que a música brasileira chegou ao fundo do poço, quando pensamos que não  há mais vida inteligente na música nacional, chega aos nossos ouvidos um revigorante som e descobrimos que estamos errados.

Ouvindo Céu, Tiê, Roberta Sá, Aline Calixto, Tulipa Ruiz, O Teatro Mágico, Fábio Góes, Jeneci e tantos outros, sentimos que sim, o cenário musical contemporâneo brasileiro vai muito bem, obrigada! Os grandes artistas não ocupam um merecido lugar nos grandes meios de comunicação de massa, mas graças a Internet podemos mergulhar num mar de talento, sensibilidade, arte.
A este time de verdadeiros artistas nacionais podemos juntar Cícero. Em “Canções de Apartamento”, o artista se revela num trabalho intimista e verdadeiro. Cícero assina a autoria das letras das dez faixas que compõem o disco e a melodia de nove. Na faixa “Eu não tenho um barco, disse a árvore”, a autoria da música é compartilhada com Jorge Jr.

São canções melancólicas, som acústico e letras capazes de fazer com que qualquer um se identifique com as dores e as reflexões que Cícero propõe. O título do álbum casa perfeitamente com o clima do trabalho: canções que refletem sentimentos cotidianos, universais. Elementos que estão presentes no dia-a-dia de todos estão presentes nas letras.

Impossível não parar para pensar na letra de “Açúcar ou Adoçante” que narra as dores de um amor recentemente terminado, mas que ainda não está cicatrizado. Ainda não se está pronto para alguma reaproximação, pois ainda dói. Mas a presença do ser amado faz bem: “Mas fica um pouco mais/Que tal mais um café?”.

Em “Laia laia”, Cícero questiona aquela necessidade de todos brasileiro se sentir impelido à alegria do Carnaval: “Vamos botar chapéu de burro na cabeça do rei/ Deixar a tristeza no canto e sair”.

Em “Ensaio sobre Ela” fala sobre aquele amor que chega de repente, sem que seja bem percebido, mas que da mesma maneira que chega de supetão, termina. A melodia triste e o som de chuva ao fundo criam a atmosfera melancólica da canção, que transmite a dor daquele cujos sonhos acabam de ruir.

Valem também uma atenção mais apurada as músicas “Pelo Interfone”, “Ponto Cego”, “Vagalumes Cegos” e “Cecília e os Balões”.

“Canções de Apartamento” é um disco ideal para ser ouvido sozinho, num dia chuvoso, com uma caneca de chocolate quente ao lado.

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A Arte da Facilidade

A arte existe porque viver não é o bastante, afirmou certa vez o poeta Ferreira Gullar. Desde os tempos mais longínquos, o ser humano já se expressava em forma de arte. Seja para eternizar momentos felizes, seja para representar sua adoração a um ser superior, seja para expressar seus medos e inseguranças. A arte acompanhou a evolução humana e se vez presente na história da vida de cada um.

Para Cândido Portinari, a arte tem o potencial de transformar aflições em esperança e o filósofo Friedrich Nietzsche afirmava que a vida real é um convite ao suicídio, e a arte seria a forma de tornar a vida “vivível”.

Pela arte entramos em contato com o nosso próprio eu mais sensível. Podemos extravazar nossas inquietações mais íntimas e despertamos para questões profundas sobre a existência humana e suas mais delicadas nuances. A arte dialoga com a razão, mais também com o sentir.

Em diversos momentos da História da Humanidade, as mais diversas manifestações artísticas assumiram o papel de protagonistas para o despertar de uma realidade, muitas vezes áspera, que existia, mas que era abafada. A arte tem este potencial: escancarar questões acobertadas por determinados grupos sociais. Quando Leonardo Da Vince pintou La Gioconda, muito mais que retratar uma mulher e uma paisagem, ele mostrava para o mundo que o ser humano tinha valor, merecia ser olhado de frente, era um ser pensante, livre em seu pensamento e ação, por mais que a Igreja dissesse que não.

Picasso e Goya, em momentos diferentes, questionaram o sofrimento das camadas populares diante da guerra. George Sand e Simone de Beauvoir usaram a literatura para provocar o debate sobre o papel da mulher perante uma sociedade machista. Centenas de brasileiros ao som de Geraldo Vandré caminharam e lutaram contra a Ditadura Militar e pelas Diretas Já no Brasil.  

Além de ser um poderoso agente de transmissão de ideologias e despertar de reflexões sobre o que acontece com o homem e em sua vida em sociedade, a arte também tem a função de entreter.

Atualmente, percebemos que este convite ao divertimento proporcionado pela arte extrapola os demais aspectos que compõe uma obra de arte. Claro que este aspecto sempre existiu, sempre foram produzidas obras que esbanjavam algum aspecto de “beleza” e só. Eram ocas. É claro também que estes artistas se perderam no tempo e hoje seus nomes e obras estão esquecidos em alguma prateleira empoeirada no canto da História.

No contexto atual, os meios de comunicação alcançaram seu ápice em facilidade e rapidez no compartilhamento de informações. Mas com essa rapidez, estamos cada vez mais sem tempo para processar tanta informação. Aparentemente dicotômico, pois se por um lado temos as facilidades que reduzem o tempo de elaboração de um trabalho, por outro estamos sempre querendo executar mais e mais. É a era dos workaholic, que com o advento dos celulares e da internet móvel não se tem necessariamente uma jornada de trabalho estipulada. E a arte se tornou algo para ser apreciada nos escassos tempos livres, como mero entretenimento.

Com essa “falta de tempo” e com a ideia de que a arte serve para “relaxar”, ganharam projeção as obras de consumo rápido, fáceis. O tempo urge e poucos têm tempo para refletir sobre uma obra. Pelo menos é assim que somos induzidos a nos sentir.

Além dessa ideia cristalizada no imaginário popular, os grandes meios de comunicação nos bombardeiam insistentemente com essas obras de consumo fácil, como músicas com versos simples e refrões que são facilmente aprendidos ou filmes que repetem a mesma estrutura narrativa de produções anteriores (se começa a assistir sabendo como será o final).

Questões econômicas são extremamente relevantes para questionarmos tais questões, pois a arte é um produto e como tal, precisa ser vendida. Mas na bancada para esta compra, por que tais produtos têm tamanho apelo? Por que as grandes gravadoras optam por determinado artista em detrimento do outro?

Os meios de comunicação divulgam tais produções como uma demanda pelo consumo ou há mesmo um cerceamento, uma espécie de censura para as produções de induzem demais ao raciocínio e à reflexão?

A arte não está agonizando num mar de obras ocas. Se de um lado temos a projeção de certas produções pelos grandes meio de comunicação, surgem a cada dia diversas outras formas de divulgação de novos artistas e a visita a antigos. Internet, festivais, centros culturais. As opções são muitas, basta sair desta uma zona de conforto incentivada e nos aventuremos pelas opções de descobertas que a arte pode proporcionar.

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